sábado, 22 de abril de 2017

CORTE DE NÉVOA E FÚRIA (ACOTAR #2)

“Feyre assume seu lugar como Quebradora da Maldição e dona dos poderes de sete Grão-Feéricos. Seu coração, no entanto, permanece humano. Incapaz de esquecer o que sofreu para libertar o povo de Tamlin e o pacto firmado com Rhys, senhor da Corte Noturna, Feyre se transforma na peça-chave de um jogo que desconhece. Contudo, ela deve aprender rapidamente do que é capaz. Pois um antigo mal, muito pior que Amarantha, se agita no horizonte e ameaça o mundo de humanos e feéricos.



Corte de Névoa e Fúria é possivelmente meu livro favorito de 2016 e a série de Sarah J Maas com esse volume entrou na minha lista de  favoritos de todos os tempos. A receita do sucesso? Praticamente todos os problemas do (já bom) primeiro livro foram endereçados, a mitologia criada foi aprofundada, antigos personagens ganharam complexidade e os novos personagens são praticamente quem você gostaria de convidar para um chá na sua casa porque eles são OH SO COOL. E a história? Do tipo que você vira a noite lendo para descobrir o que vem a seguir, como todos os melhores livros são.

Estamos falando de uma sequência então, óbvio, spoilers do primeiro livro aparecerão em quantidade. Porém e como a maioria das pessoas lê resenhas para descobrir se o livro é “para elas”, não haverá spoilers desse segundo livro aqui. Se você não leu o primeiro livro da série, Corte de Espinhos e Rosa, e quer saber se vale investir na série (já respondo: SIMSIMSIM), você pode ver a resenha aqui.

Se o primeiro livro claramente bebia de “A Bela e a Fera”, a inspiração deste segundo livro é o conto de Hades e Perséfone, cujos papéis aqui são de Rhysand e Feyre. Seguindo o final do primeiro livro e após vencer Amarantha e se transformar numa féerica, Feyre precisa se adaptar a sua nova condição enquanto tenta superar os horrores que viu sob a montanha. De volta com Tamlin à Corte Primaveril, Feyre se vê obrigada ainda a cumprir sua barganha com Rhysand a alternar seu tempo entre a Corte da Primavera e a Corte Noturna – mas o lugar onde ela deveria estar por obrigação parece ser aquele mais difícil de deixar. A distância da Corte Primaveril obriga Feyre a confrontar questões como amor, lealdade e liberdade e a se reinventar. E, claro, porque isso não é um livro introspectivo ao estilo “Apanhador no Campo do Centeio”, ÓBVIO que há um mal pairando sobre o munda féerico e humano que faz Amarantha parecer um Teletubby.

Sobre nossos velhos conhecidos, Feyre cresce muito em relação ao livro um e é delicioso acompanhar seu desenvolvimento. Na resenha do primeiro livro, comentei que ela e Tamlin me davam sono metade do tempo. Nada disso nessa sequência. Aqui, Feyre finalmente se junta à Katniss, Katsa, Sybelle e tantas outras heroínas que fazem a gente bater palminhas mentais de alegria. Tamlin continua sendo um babaca na minha opinião (desculpa aí quem shipa), mas pelo menos agora é um babaca sobre o qual eu tenho interesse em ler. Nesta, uma das minhas personagens favoritas do primeiro livro, ainda não ganhou um livro só dela (HOW LONG MUST I WAIT??), mas seu tempo de tela e complexidade aumentaram consideravelmente e ela só consolidou seu lugar no meu coraçãozinho. E Rhys...Rhys é a melhor personagem masculina que eu vejo num YA em bastante tempo. Talvez nos últimos dois ou três anos. Isso sem contar as novas personagens introduzidas nesse volume, com menção honrosa a Cassian e Amren, que me fizeram rir entre uma cena mais tensa e outra e ganharam meu respeito com muitas doses de badassery




O resumo é: todos são humanos, Sarah J Maas não trabalha com unidimensionalidade aqui. Novas facetas são introduzidas conforme as personagens passam por situações diversas e isso contribui para manter a história consistentemente interessante.

Sem dar maiores spoilers, gosto muito de ver a reflexão de Feyre em relação ao seu relacionamento com Tamlin e gosto mais ainda das conclusões que ela tira a respeito. Ver as interações dela com Rhysand e a Corte Noturna versus o que acontece na Corte da Primavera só serve para reforçar algo que me incomodava desde o primeiro livro e que se transformou em conclusão irrefutável nesse: algumas dinâmica de relacionamento mostradas no livro são sim abusivas. Sarah J Maas não deixa esse ponto passar batido e o endereça de forma elegante como poucas vezes eu vi. Uma lufada de ar fresco com tantos livros no mercado que parecem não entender o conceito de relacionamentos saudáveis.

Clichés são abandonados, pontas soltas são amarradas, novos mistérios são lançados, reviravoltas surgem com frequência (e execução ímpar) e a ação é intercalada na medida certa com momentos mais reflexivos ou românticos. É um livro que sabe equilibrar todos os seus elementos com perfeição- e tem muita coisa no pratinho da Sarah J Maas aqui. Ponto para ela.

A autora, que deve ter a newsletter mais fofa do mundo (vale se inscrever), entrega um excelente trabalho e vence minha resistência em relação a sua outra série, Trono de Vidro – algumas resenhas negativas de pessoas cuja opinião costuma ser similar a minha me fizeram fugir dessa série até aqui (o fato de ter trezentos mil livros também), mas ok, me dei por vencida e agora quero conferir.

Aliás, Sarah J Maas anunciou que a trilogia original se transformou em seis livros, então devemos ter lançamentos anuais até 2020. Confesso que tenho sentimentos conflitantes sobre essa notícia. Se por um lado o mundo de ACOTAR* é muito rico e rende facilmente seis livros, acho que só funcionará se Feyre e os protagonistas desses três primeiros volumes derem lugar no futuro para novas personagens ou, alternativamente, se personagens secundários assumirem o holofote. Então é com um misto de medo e ansiedade (do tipo boa) que eu espero pelas cenas dos próximos capítulos.



O terceiro livro da série, Court of Wings and Ruins, vai ser lançado em 02 de maio nos Estados Unidos e já está em pré-venda. No Brasil, tendo em vista as datas de lançamento dos dois primeiros livros por aqui, minha aposta é no mês de setembro.


#CHEGAMAIO


Narrativa: 5/5
Desenvolvimento das personagens: 5/5
Fator X: Adicionado recentemente à lista de "lugares ficcionais que gostaria de conhecer".
Avaliação Geral: UM PERFEITO 5/5 COM FOGOS DE ARTIFÍCIO NO FUNDO!



(*) ACOTAR é o acrônimo de A Court of Thorn and Roses, primeiro livro e título da série como um todo. O segundo livro é chamado de ACOMAF ou A Court of Mist and Fury. O terceiro, previsto para chegar em março, será ACOWAR e a autora afirmou que o uso de “war” (guerra) no acrônimo não é acidental...s2





domingo, 16 de abril de 2017

BROKEN PRINCE (THE ROYALS #2)

"Reed Royal tem tudo – aparência, status, dinheiro. Ele nunca se importou com ninguém além da sua família até Ella Harper aparecer em sua vida. Mas o que começou com ressentimento e a tentativa de fazer a vida da protegida do seu pai um inferno se transformou em outra coisa.Quando um erro tira Ella dos braços de Reed e traz caos à casa dos Royal, o mundo inteiro de Reed parece se despedaçar ao seu redor. Ella não o quer mais, diz que eles vão destruir um ao outro. Ella pode estar certa."



Meh.

Acho que essa é a melhor palavra para descrever o morno segundo livro da série Royals, o que é muito (muito muito) triste porque eu estava esperando DRAMA, RISADAS, EASTON, DRAMA e no fim das contas levei trezentas páginas que fariam Holdem Caulfield corar tamanha a quantidade de teen angst.



Teen angst. Definitivamente uma das coisas que eu mais detesto em livros com, bem, adolescentes.

Diferente do primeiro livro (que eu adorei e devorei rapidinho – resenha aqui), Broken Prince é lento, tem pouca coisa acontecendo até as últimas 20 páginas, muito mimimi e poucos momentos engraçados nonsense que transformaram seu predecessor numa obra tão fácil e divertida de ler. Aquela qualidade de novela mexicana engraçada e meio bizarra? Se foi. Talvez o problema aqui seja que Broken Prince se leva a sério demais em uma série na qual o trunfo parecia ser sua habilidade de, justamente, fazer o contrário disso.

Easton, a melhor personagem até aqui, faz aparições esporádicas. Reed, que nunca foi minha pessoa favorita, merece menos ainda os meus favores após ganhar um POV nesse livro. Callum, pelo amor de Deus, eu não consigo te entender homem – a motivação da personagem versus ações não conversam entre si. E Ella, por favor, para de reclamar amiga. Ou de querer doar sua herança.



Falando sobre POV, achei desnecessário intercalar Reed e Ella. Sou do tipo que prefere um POV único, salvo se houver uma justificativa extraordinária (ou muita qualidade na escrita), o que não é o caso. Não consigo entender o que ganhamos com essa alternância e Reed, honestamente, para mim tem o carisma de uma caixa de papelão.

Vou ler o terceiro livro da série, Twisted Palace, porque quero chegar no livro ainda não lançado que será protagonizado por Easton. Não fosse por isso, tenho minhas dúvidas se seguiria...talvez pelo cliffhanger no final? Por outro lado, boas histórias tem que se sustentar sem eles, não?

Narrativa: 1.5/5
Desenvolvimento das personagens: 2/5
Fator X: Continuar lendo para chegar no livro do Easton? *dá de ombros*


Avaliação Geral: 2/5


domingo, 2 de abril de 2017

PRINCESA DE PAPEL (THE ROYALS #1)

"Ella Harper é uma sobrevivente. Nunca conheceu o pai e passou a vida mudando de cidade em cidade com a mãe. Mas agora a mãe morreu e Ella está sozinha. É quando aparece Callum Royal, amigo do pai, que promete tirá-la da pobreza. A oferta parece tentadora: uma boa mesada, uma promessa de herança, uma nova vida na mansão dos Royal, onde passará a conviver com os cinco filhos de Callum. Ao chegar ao novo lar, Ella descobre que cada garoto Royal é mais atraente que o outro – e que todos a odeiam com todas as forças. Especialmente Reed. Ele diz que ela não pertence ao mundo dos Royal. E ele pode estar certo."

Você sabe que gostou muito de um livro quando ele acaba e você imediatamente compra a continuação e começa a ler feliz e satisfeita, agradecendo todos os deuses do universo por você viver em uma época na qual o Kindle existe e você pode fazer esse tipo de coisa sem tirar seu pijama. E é assim que eu apresento Princesa de Papel, o livro que você vai amar no melhor estilo guilty pleasure de quem assiste séries na MTV e sabe muito mais do que deveria sobre a vida das Kardashians (cof, cof).



A história é simples. Ella, garota orfã que tenta sobreviver após a morte da mãe e sem dinheiro, é encontrada por Callum Royal, que alega ser seu guardião legal após a morte do pai de Ella. A partir daí, Ella vai morar na casa de Callum e dos seus cinco filhos, Gideon, Reed, Easton (MELHOR PESSOA! #fangirling) e os gêmeos Sawyer e Sebastian. Os garotos Royal mandam e desmandam na escola em que frequentam, a exclusiva Astor Park, onde os chamados “decretos reais”  podem transformar uma pessoa na mais popular ou mais ostracizada da escola. Jogada em um mundo que não conhece, Ella se depara não só com a dificuldade em se ajustar, mas também com a determinação dos filhos de Callum em fazer da vida dela um inferno. Em especial de Reed, que está convencido que Ella tem uma agenda oculta e não passa de uma oportunista.

Princesa de Papel é um livro estranho. Deliciosamente estranho, “meu deus preciso continuar lendo todo esse drama e OMG eu amo e odeio metade das personagens ao mesmo tempo” estranho. Porque honestamente, é uma mistura de novela mexicana que passaria no SBT, Segundas Intenções e Hana Yori Dango. É perfeito. Como ninguém pensou nessa mistura de referências pop antes? Erin Wyatt, sua gênia. Te amo.


O livro é sim exagerado e exige de você o chamado suspension of belief (não consegui pensar em uma expressão em português que signifique a mesma coisa: basicamente parar de procurar verossimilhança e seguir a corrente) para curtir a trama. Vale a pena e, se você conseguir, espere muitas risadas e um livro devorado em uma noite. Princesa de Papel é diversão garantida. As próprias autoras reconhecem que o livro tem seus momentos "sem-noção" e deixam bem claro em várias entrevistas que era isso que elas queriam desde o começo. A série não vai ganhar nenhum Nobel da literatura, mas tudo bem. Nem todo livro precisa. Se você conseguir, de novo, entender que era esse o objetivo em nome da diversão, você vai gostar.

E sim, os Royals são todos disfuncionais e nem anos de terapia resolveriam todos os problemas daquela família. E, certo, Reed Royal é um idiota na maior parte das vezes e toda essa gente tem que parar de dizer a Ella o que ela pode ou não fazer porque esse negócio de macho alfa controlador é  muito século XIX (ou Christian Grey) e, gente, vamos superar isso. Além disso, todo mundo no universo de Astor Park parece governado única e exclusivamente por hormônios - o tempo todo (leia com a voz do garoto de O Sexto Sentido, por favor). 

Minha opinião sobre as personagens durante todo o livro.
E, aham, verdade, o relacionamento de Ella e Reed é zero, zero saudável. Também acho que, no contexto do livro, fazer a protagonista ser virgem foi uma oportunidade perdida de falar sobre empoderamento feminino (se ela não fosse, mudaria algo? Até porque 1/3 do livro é gente se pegando, vamos lá). E, totalmente concordo, por mais que o Reed tenha a cara de (coloca sua celebrity crush aqui), o fato da Ella ter um instacrush nele enquanto é tratada mal (para não dizer de forma abusiva) me dava vontade de dar uns tapas nela. O livro é, de novo, divertido, mas não dá para fingir que inexistem problemas. Para mim ainda assim valeu a experiência. E Ella é, apesar de tudo, uma heroína interessante, ainda que eu ache que ocasionalmente falte um pouco de cérebro (como no final do livro).

Eu li a versão em inglês, mas o primeiro volume da trilogia já foi publicado no Brasil pela Editora Planeta no começo do ano. Se se você não se importar em ler em inglês e não quiser esperar, a trilogia já foi inteiramente lançada nos Estados Unidos (um conhecimento intermediário do idioma é suficiente para leitura).

E, não dá para não comentar, sabe o que vai ser lançado esse ano? Um livro protagonizado inteiramente por Easton, a nova adição da minha lista de personagens ficcionais favoritos. Ele é o melhor dos Royals (eu sei que isso não é exatamente grande coisa), e, embora seja tão tão disfuncional quanto o resto da familia, é mais adorável que todo mundo somado. #FEELS

Narrativa: 4/5
Desenvolvimento das personagens: 3/5
Fator X: Hana Yori Dango + Geordie Shore + Segundas Intenções = Amo (mesmo que não faça sentido algum metade do tempo).
Avaliação Geral: 4/5



quarta-feira, 30 de março de 2016

GOSTO DE DESENHOS, ME PROCESSE #03 - VITAMIN

Vitamin, mangá em volume único de Keiko Suenobu (a mesma de Limit, cujas primeiras impressões vou postar em breve!), foi um dos lançamentos mais importantes da JBC ano passado e demorei mais do que devia para colocar minhas mãos nele. É um título que, como todo o trabalho da autora, trata de bullying no ambiente escolar.

Se você ler a premissa de Limit e Vitamin, com certeza  vai achar que Limit é a obra mais pesada entre as duas. Em termos de premissa pode até soar dessa forma. Mas a brutalidade de Vitamin, que para mim é uma obra muito mais densa e “soco no estômago”, está justamente no fato desta ser uma história como qualquer outra, um slice of life. Não exige uma situação extrema. Exige dia a dia. Exige estereótipos sociais que perpetuamos sem perceber. Exige slut-shaming. Exige aquele fenômeno engraçado de insensibilidade dos grandes grupos (em que ninguém assume responsabilidade, sempre acreditando que outro irá fazê-lo). Podia ter sido na sua escola ou podia ter sido com você. E qualquer um de nós poderia fingir que não tem nada a ver com a gente se acontecesse no nosso grupo social. É saber que a insensibilidade podia ser sua (ou minha) o que desconcerta, e esse é o grande trunfo de Vitamin.

Vitamin conta a história de Sawako, uma estudante do ensino médio que leva uma existência normal até o dia em que um colega de classe a flagra transando com o namorado em uma sala de aula (aqui a gente precisa abrir um parêntese para eu dizer que fiquei em dúvida se era consentido ou não – a conclusão óbvia é que se há dúvida, é porque não é). Depois disso e por esse simples fato, a vida de Sawako se torna um inferno – de slut-shaming com desenhos e palavrões no quadro-negro, a camisinhas espalhadas pela sua mesa e agressões no vestiário feminino. O namorado – que, claro, termina com ela e ainda diz a todos que não era ele que havia sido flagrado com Sawako – passa por algo similar? ÓBVIO que não, afinal Sawako é a garota, ela é que não poderia ser “fácil” desse jeito. É como as vítimas de estupro, que não deviam ter usado minissaia em primeiro lugar...Esses absurdos parecem familiar com o que a gente escuta por ai?



Não vou contar toda a história, mas Sawako passa por muitos abusos, físicos e mentais, e as cenas são bem chocantes. Tão chocantes, na verdade, que logo após a leitura esse era um dos pontos que eu pretendia colocar na resenha como algo que não me agradou tanto por parecer irreal, um exagero da parte de autora. Ia dizer que se a autora tivesse usado situações menos extremas a história de Sawako talvez ressoasse ainda mais com as pessoas. Mas não vou falar nada disso, sabe por que? Antes de começar a escrever a resenha, fui pesquisar um pouco sobre bullying no Japão porque tem me chamado a atenção a quantidade de obras de TV (doramas) e mangás a respeito – e ao que parece o bullying nas escolas japonesas costuma assumir uma nuance muito mais violenta do que estamos acostumados a ver nas escolas brasileiras. Eu fiquei chocada ao ler uma história que recebeu muita cobertura na mídia japonesa, sobre um garoto de 13 anos que se suicidou após ser queimado com bitucas de cigarro, obrigado a furtar em lojas e até a simular o próprio suicídio pelos colegas de classe. Não estou dizendo que não há bullying no Brasil e que ele não toma proporções severas ou violentas, ok? É claro que há e claro que ocorre de várias formas diferentes. Mas me surpreendeu a quantidade de matérias e debates falando sobre o problema no Japão (atualmente a maior causa de mortes no Japão no grupo de 10 a 19 anos é suicídio), o que me fez achar que as coisas realmente assumem um contorno diferente por lá e o retrato de Keiko Suenobu em Vitamin não seja algo tão extraordinário quanto eu imaginava.

Mas voltando a nossa protagonista. Ela resiste, luta, mas eventualmente fica deprimida e não quer mais ir à escola, sair da cama...O único conforto vem dos mangás que ela adora desenhar. Esse apoio da protagonista nos desenhos e o relacionamento dela com os pais são arcos de grande importância na história também. E sendo um único volume de três capítulos apenas, me surpreendeu quantos temas a mangaká conseguiu trabalhar e conectar, sem nunca parecer raso ou algum tipo de pregação.

Eu saí da escola há muito tempo e me formei na universidade há alguns anos, mas não há como não se deixar afetar por Vitamin.  

A obra me fez chorar e fazia MUITO tempo que eu não chorava lendo um mangá. Talvez a última vez tenha sido em Fruits Basket, há quase dez anos. Enfim, faz tempo. Mas que sensação boa, catártica – sou dessas, adoro chorar em ficção. Chorei com Sawako, quando ela era humilhada, mas chorei principalmente ao ver o relacionamento dela com sua mãe – que é realista, difícil, mas cheio de amor.

Não é um mangá perfeito, mas é muito bom. As falhas na verdade não chegam a ser falhas, mas são principalmente restrições impostas pelo número de capítulos da obra (três). Se fosse mais extensa, certamente a  autora conseguiria dar mais profundidade aos algozes de Sawako, que para nós são rostos sem nome e sem contexto. Por outro lado, essa talvez tinha sido a intenção da autora desde o começo – o bullying é algo, afinal, que está relacionado também a esse sentimento de indiferença ou histeria coletiva que a “massa” permite, na qual ninguém se responsabiliza ou se sente parte do problema, que sempre é “o outro” e "do outro".

Sawako, deixa eu te dar um abraço sua linda!

Leia Vitamin. Não é uma obra para todo mundo, mas é uma experiência ficcional que deveria ser para todos - mesmo que você conclua que não gostou.